Interessante, mas essa é uma reflexão que me ocorreu recentemente. Onde seria o lugar da gente? Como encontrar esse lugar? Como sempre, na busca do que queremos ou precisamos, vamos procurar fora o que na maior parte das vezes está dentro da gente.

É muito comum nos sentirmos desarranjados, andando de um lugar para outro, “como uma galinha procurando onde botar o ovo”, como diria minha mãe. E esse andar de um lugar a outro pode ser no plano real ou no sentido figurado e pode se manifestar em apenas uma área da nossa vida ou de uma maneira mais ampla. O que tem de concreto é o sentimento de estar meio sem lugar, uma sensação desagradável, ou de estar vivendo uma vida que não é a sua, que não lhe pertence, de estar representando um papel, seja ele qual for, ou ainda uma sensação meio vaga de não saber o que quer, de estar meio perdido, sem rumo, sem entender qual é a sua, diriam alguns.

Assim, sentindo dessa forma, a pessoa acaba como uma ovelha no rebanho e vai seguindo o grupo, mas sem muito gosto, sem um interesse real. Simplesmente se deixa ser levada como uma folha que caiu na água e vai boiando, descendo rio abaixo ao fluxo das corredeiras. Sem paixão. Isso caracteriza uma vida morna, sem graça, sem sabor, em que a pessoa apenas sobrevive. Sem sentir verdadeiramente a energia fluir em seu corpo dos pés à cabeça, sem sentir o ar encher o pulmão em toda a sua plenitude. É funcionar com meia respiração, a energia contida, um prazer meia boca.

Não é exatamente algo ruim, é melhor que estar sofrendo um tremendo vazio ou uma agitação enorme, só para citar algumas outras possibilidades extremas. Mas também não é bom, é se contentar em viver por menos quando podemos viver por mais. Todos nós temos o direito de viver intensamente. Sorver da vida tudo o que ela possa nos dar, e isso não quer dizer ganância, avidez, seja por consumir algo ou possuir bens materiais. Sorver da vida o que ela possa nos oferecer é tomar posse de tudo o que já é nosso por direito de nascença, a começar pelo nosso corpo físico, nada fora, nada além, tudo em nós mesmos.

Envolve olhar para a riqueza que eu tenho, que eu sou e usufruir dela ao máximo. Isso porque o lugar da gente não é algo fora, e muita gente fica a procurar isso na geografia, indo de uma região a outra, ou até mesmo na cartografia, explorando diferentes cidades ou indo para o campo, ou ainda saindo do seu país para um outro além-mar, na esperança de encontrar lá o seu lugar. E na maior parte das vezes não encontra. Passa a vida como estrangeiro, segregado em grupos da mesma procedência, apreciando de longe o que se passa no país de origem, mantendo as lembranças e usufruindo delas.

Vê-se que o lugar da gente do qual estou falando não pode ser resolvido dessa forma, não é se mudando para diferentes lugares no mapa, assumindo diversos endereços que vai encontrá-lo. É se movendo dentro de si mesmo, em busca daquilo que lhe faz, daquilo que lhe constitui, daquilo que você é, que vai encontrar esse lugar de paz. É nele onde vai se ancorar, ou melhor, é nele onde está ancorado, mas como não tem conhecimento disso fica vagando perdido. Entretanto, assim que o encontrar, terá certeza de que lá é o seu lugar. A certeza virá ao perceber que já não tem de ir ou quer chegar a nenhum outro lugar, pois já está onde queria ou deveria estar. Não no sentido de coisas materiais, repito, e nem de realizações e feitos, como se poderia imaginar; trata-se de algo de uma outra qualidade, tem a ver com um estado de quietude e harmonia interna.

Estar em paz é tudo de bom, é a sensação de que nada mais lhe falta, e o que vier depois é lucro. Estar nesse sossego é também ter a sensação de que está no seu lugar, sentir algo gostoso dentro. Qual é esse lugar? É um lugar que tem afinidades com a sua criação, com a sua educação, com aquilo que você pegou gosto quando criança. Não é um lugar que você inventou para si mesmo agora, é um lugar no qual você se encaixa com perfeição, fica tudo justinho, sem emendas, sem remendos. Algo grande e pequeno ao mesmo tempo. Uma grande conquista, sem ir a lugar algum, aparentemente sem fazer nada, apenas mergulhando dentro de si e acatando aquilo que você é. Porque aquilo que você é está nesse lugar que é só seu. E, pra completar, lembrei-me agora de uma música caipira antiga, música raiz (“Majestade o sabiá”) que diz tudo ao cantar: “tô indo agora prum lugar todinho meu… essa viagem dentro de mim foi tão linda… é que o meu eu, esse tão desconhecido, jamais serei traído, esse mundo sou eu”.

Obs: preferi usar o masculino para me referir aos dois gêneros nesse texto.

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