Transcrição de entrevista de uma arteterapeuta pioneira no Brasil, sobre o que é e para que serve a arteterapia.

(Entrevista publicada na http://www.gestaltsp.com.br/fique.html) que Selma Ciornai concedeu ao jornalista Walter Sebastião do jornal Estado de Minas:

  1. Sebastião:O que é, afinal, arteterapia? Como a arte pode funcionar como terapia? É um conceito diferente de terapia ocupacional?
    S. Ciornai:Arteterapia é a utilização de linguagens artísticas, predominantemente plásticas, de símbolos, metáforas e, de forma geral, da criatividade, em processos terapêuticos. A arte é uma expressão humana desde a Idade da Pedra, e como tal é uma necessidade tanto individual como social. Porém, funciona como terapia quando utilizada em um enquadre terapêutico. Por trabalhar com o criativo, lida com o novo e processos de criação artísticos, por envolverem os sentidos, o “fazer”, são em geral muito revitalizantes e, às vezes, também relaxantes. Proporcionam a possibilidade de ver “o velho” com “um novo olhar” , de reconstruir de formas novas velhas percepções. Além disso, ao contrário dos sonhos, os trabalhos de arte são sempre surpreendentes para a pessoa que cria, que pode encontrar no trabalho que criou uma fonte de reflexão e auto-conhecimento. E neste sentido, a arteterapia facilita o encontro da pessoa com seu eu mais autêntico.

Difere da terapia ocupacional em princípio pelo próprio nome, pois a arteterapia não tem por intenção “ocupar”, mas proporcionar experiências de criação, auto-conhecimento e crescimento pessoal. Acho que não só as atividades propostas diferem, como também a própria atuação do terapeuta. No entanto, ouço dizer que há correntes mais modernas em terapia ocupacional que ampliam seus objetivos nesta direção. 

  1. Sebastião:Como surgiu a arteterapia? 
  2. Ciornai:Apesar de que o interesse pelos trabalhos de arte de pacientes psiquiátricos como elemento diagnóstico já vinha acontecendo na Europa, a Arteterapia surge como profissão nos EUA i.e., logo após a segunda guerra mundial, através do trabalho de Margareth Naumburg. Inicialmente professora de arte em escolas de vanguarda em Nova York, Naumburg, ao perceber como a arte ajudava as crianças e adolescentes em seus processos de desenvolvimento pessoal, interessou-se durante a década de 30 e 40 em explorar sua eficácia também no campo da psicoterapia e da psiquiatria, publicando sua primeira pesquisa em 1947. E desde então, este campo se desenvolveu e ramificou em várias linhas e escolas. 
  3. Sebastião:Existe doenças para os quais a arte é especialmente recomendada? 

S.Ciornai: Bem, como já disse a arteterapia não atua só em “doenças”, atua também em trabalhos de cunho preventivo, atualmente chamados de “promoção de saúde” , e na facilitação de dificuldades na vida que todos experienciam, como conflitos pessoais ou familiares, tristezas, medos, etc. Em relação à doenças, eu destacaria como especialmente favorecidas aquelas em que a expressão e a comunicação verbal estão mais comprometidas, seja por um comprometimento cognitivo (como em alguns distúrbios psiquiátricos) , seja devido ao fato de que a linguagem verbal às vezes é muito crua e dura para falar de experiências mais traumáticas e dolorosas; a imagética, a linguagem simbólica e metafórica , permitem expressar sentimentos e sensações de um outro jeito, por uma outra via. Um exemplo pungente é a obra de Frida Kahlo. 

  1. Sebastião: E existem artes particularmente “úteis” como terapia?
  2. Ciornai:Não, mas acho que cada linguagem artística tem suas características, que evidentemente irá facilitar mais certos processos. Por exemplo, nas artes plásticas, cria-se um “trabalho”, que pode servir de fonte de reflexão para a pessoa, e, também, atuar como objeto facilitador de contato e comunicação com o terapeuta e outros participantes de um grupo de forma menos “ameaçadora” do que uma dança, uma performance ou um cantar individual. A música por outro lado, quando cantada junto, cria instantaneamente um sentimento de comunhão e harmonia grupal, que, em um trabalho de artes plásticas só se alcança após um processo mais longo de criação grupal. 
  3. Sebastião:Qual é o limite para a arteterapia? Pergunto porque há artistas que parecem se entregar a “doença”. Ou, para o artista, a arte nada tem de terapia? 
  4. Ciornai:Não sei se entendi direito a pergunta. Muitas pessoas criam, mas isso não é “arteterapia “. A produção de um artista, assim como várias outras coisas na vida, um filme, uma peça de teatro, um encontro com um amigo, podem ser “terapêuticos” no sentido de serem reveladores, propiciarem reflexões , insights, i,.e, de serem propulsores de crescimento pessoal. Mas a arteterapia , assim como outras terapias, implica em um enquadre terapêutico e na presença ativa de um terapeuta, que acolhe, ajuda, facilita e está presente com um olhar e uma postura terapêutica , facilitando as dificuldades e entraves do outro. A produção de um artista pode ter valor estético, mas do ponto de vista de seus processos pessoais pode estar implicando apenas na expressão e catarse de suas patologias…. o que sem dúvida pode ser “terapêutico” no sentido mais restrito de estar canalizando para a arte o que poderia ser lesivas para a sociedade , mas isto implica em uma visão muito limitada de “terapia”. Por outro lado, essa idéia de que a arte é a expressão de “doenças e patologias”, e que o artista se fizer terapia perderá sua “vertente criadora” é absolutamente errônea e fruto de uma “psicanalização” indevida da vida. A arte é uma necessidade humana, e como tal, uma das nossas expressões mais saudáveis e sublimes.Todas as pessoas e todas as sociedades têm a capacidade inata de criar e de se expressar criativamente –veja como todas as crianças criam. Às vezes isto se perde no que a criança cresce, é reprimido — e é justamente na educação que corta a expressão criativa que as raízes de muito de nossas patologias sociais se encontram…. 
  5. Sebastião:Trabalho há muitos anos no setor de arte e cultura. E já ouvi dezenas de artistas dizerem que senão fizessem arte eles morreriam, enlouqueceriam etc. Descontando o que há de “retórica” na afirmação, pode-se ouvir nelas ecos da função terapêutica da arte? 
  6. Ciornai:Sim, como já disse, e apoiando-me em autores como Fayga Ostrower (Criatividade e Processos de Criação ) , Ernest Fisher (A Necessidade da Arte) e outros, acho que a expressão através de linguagens artísticas é uma necessidade humana, e uma fonte de revitalização e auto-estima tanto individual como comunitária, um canal dialógico entre o indivíduo e seu mundo. Talvez artistas estejam entre aquelas pessoas mais sensíveis que sentem esta necessidade de forma mais premente e visceral. Mas acredito que a expressão artística seja uma necessidade e uma aptidão de todos. Especialmente porque vivemos hoje em dia recebendo tantas informações , por meios de comunicação e na própria vida, que necessitamos de um espaço onde possamos elaborar e processar estas impressões para, por um lado, não nos transformarmos em passivos receptores de informações, e por outro, não nos intoxicarmos com toda essa massa de estímulos e informações que nos chegam e que estimulam E ferem nossa sensibilidade a cada minuto. 
  7. Sebastião:Podia falar dos títulos e dos objetivos da coleção “Percursos em Arteterapia”? 
  8. Ciornai:Bem, iniciei em 1989 um curso de extensão em Arteterapia no Instituto Sedes Sapientiae, que em 1990, a pedido dos alunos, se transformou no 1º curso de Especialização em Arteterapia a ser dado em uma instituição acadêmica em São Paulo. Em 1989, ao comemorarmos 10 anos de existência, surgiu a idéia desta publicação, que já celebra 15 anos de nossa existência! 

Os objetivos desta série foram então, por um lado , fazer um registro deste nosso percurso , ou melhor dizendo, dos nossos “vários” percursos nestes 15 anos, pois a partir do eixo e da fundamentação teórica comum que nos identifica e caracteriza, cada profissional formado utilizou suas experiências, tanto prévias como atuais, assim como sua criatividade, no desenvolvimento de uma forma própria de trabalho, freqüentemente pioneira, em seu campo específico de atuação. 

A série “Percursos em Arteterapia” traz de forma didática tanto a fundamentação terapêutica e teórica básica que dá eixo e norteia a formação que damos (a parte sobre “Arteterapia Gestáltica” que consta do 1º volume da série) , como também suas aplicações em áreas diversas — todas teoricamente fundamentadas ao mesmo tempo que ilustradas através de casos e exemplos práticos. O 1º volume, é constituído por 3 partes: “Arteterapia Gestáltica, Arte Psicoterapia e Supervisão em Arteterapia” ; o 2º volume por “Ateliê Terapêutico, Arteterapia no Trabalho Comunitário, Integrando Trabalhos Plásticos com Linguagens Expressivas e Arteterapia e História da Arte”, e o 3º por “Arteterapia no Contexto Educacional, Psicopedagógico e de Saúde “

Por outro lado, ao ler estes textos percebe-se claramente tanto a formação comum do qual derivam, quanto a diversidade dos trabalhos e estilos apresentados. Por isso no prefácio comparei a série à uma árvore, que tendo raízes e um tronco sólido e consistente comum, ramifica-se em várias direções, gerando novos frutos e folhagens. Neste sentido, um outro objetivo que procuramos deixar claro é o da necessidade de uma formação consistente na área, pois evidentemente para ser arteterapeuta não basta ser artista e gostar de trabalhar com pessoas ou ser psicólogo e gostar de arte. Arteterapia é uma área transdisciplinar que exige uma formação série, consistente e específica.